cover
Tocando Agora:

Como MCs mais ouvidos do Brasil viraram empresários e revolucionaram o funk

Como funkeiros viraram empresários e assumiram o controle das próprias carreiras “Pau Pra Toda Obra” e “Cuida do Pet”, duas das três músicas mais ou...

Como MCs mais ouvidos do Brasil viraram empresários e revolucionaram o funk
Como MCs mais ouvidos do Brasil viraram empresários e revolucionaram o funk (Foto: Reprodução)

Como funkeiros viraram empresários e assumiram o controle das próprias carreiras “Pau Pra Toda Obra” e “Cuida do Pet”, duas das três músicas mais ouvidas no Spotify Brasil nesta semana, revelam uma nova tendência no mercado do funk: MCs agora são empresários de si mesmos e passaram a gerir não apenas a própria carreira, mas também a de colegas. 2º lugar do Top 50 do Spotify e acumulando 10 milhões de visualizações no YouTube em uma semana, “Pau Pra Toda Obra” tem como intérpretes MC Jacaré, MC Ryan SP, MC IG e MC Lele JP. Fora do eixo Rio-SP, Jacaré vem de Goiânia (GO) e é dono da Croco Hits. MC Ryan SP é o responsável pela Bololô Records. E MC IG comanda a Gringos World Produtora, empresa que gerencia sua carreira e a de artistas como Lele JP. Já “Cuida do Pet” tem como participantes MCs Negão Original, Aaron Modesto, Willian, Iguinho CT, Du'l, com produção de Oldilla e Alladin. A faixa ocupa a 3ª posição no Top 50 do Spotify. Negão Original é dono da Rauls Produtora, que cuida da carreira de Iguinho CT. Willian e Alladin são agenciados pela Cria Hit, empresa de DJ Loirin. Du’l e Aaron Modesto são da GLife Records, escritório do funkeiro MC GP. Já Oldilla tem sua própria produtora, a Oldilla Records. “É um novo momento. Os artistas entenderam que, com conhecimento de como funciona a burocracia da indústria da música, era possível ter uma empresa. Dá trabalho? Sim. Muito. Mas a gente vive disso”, explica DJ Loirin. Funkeiros mais ouvidos do Brasil também são empresários infográfico/g1 Esse modelo de negócios foi idealizado por MC Kevin (1998-2021) que, por conta da sua morte, não conseguiu implementá-lo na totalidade. Seguindo os passos do amigo, esses funkeiros mexeram no tabuleiro do gênero, assumiram as rédeas das próprias carreiras e passaram a agenciar colegas com o discurso: “quem melhor que a gente para entender o que um artista precisa?”. Na prática, o discurso ainda encontra algumas falhas, mas as ações já transformaram o mercado musical que está entre os mais ouvidos do país. MC IG, MC Lele JP, MC Ryan SP e MC Jacaré, autores de 'Pau Pra Toda Obra' Reprodução/YouTube Como era antes Desde que se estabeleceu em São Paulo, o mercado do funk foi gerido por empresas de médio porte, responsáveis por cuidar das carreiras, agendar shows, etc. As primeiras foram Máximo e Nois Por Nois, que cuidavam da gestão de nomes como MC Guimê, Rodolfinho, Nego Blue e outros que marcaram época nos anos 2010. Desde meados dos anos 2010, a GR6 passou a dominar o mercado com a estratégia de agenciar o máximo de artistas possível e, assim, dominar o booking das casas de show especializadas em funk no estado São Paulo – e, consequentemente, em boa parte do país. Esse modelo deu certo e a empresa comandada por Rodrigo Oliveira se tornou uma referência de gestão de carreira em contraponto às grandes gravadoras. No entanto, pouco antes da pandemia, MCs como Pedrinho e Kevin, dois dos principais nomes do cast da produtora, passaram a alegar falta de transparência da empresa com relação a repasses relacionados às plataformas digitais. Kevin, então, foi pioneiro em rescindir com a GR6 e tentar gerenciar 100% da carreira. No fim de 2020, ele criou a Revolução Records, escritório que cuidaria dos seus lançamentos musicais e da sua agenda de shows. Mesmo com poucos meses de existência, a operação da produtora foi bem tumultuada, com dificuldade de fechar contratos para apresentações e lançamentos musicais com pouca divulgação e estratégia. Em maio de 2021, o funkeiro morreu em um acidente no Rio de Janeiro. Semente plantada MC Ryan SP e MC Kevin Reprodução/Instagram Mesmo com os problemas, a ideia de Kevin chamou a atenção dos colegas, que viram ali uma oportunidade de cuidar da própria carreira. No entanto, até 2025, nenhum funkeiro atingiu grande sucesso sendo empresário e MC. Músicos e pessoas que trabalham nos bastidores explicaram ao g1 que a GR6, principal produtora no segmento, oferecia uma estrutura de qualidade, não fazendo sentido sair da empresa até então. “A GR6 oferece uma estrutura completa para o artista, que muitas vezes só se preocupa em cantar, não pensa em mais nada -- contrato, produção de clipe, de show”, explica MC IG. O primeiro funkeiro a pensar em algo a mais e conseguir um resultado mais sólido foi MC Ryan SP, em outubro de 2025, com “Posso Até Não Te Dar Flores”. Produzida pela Bololô Records, a canção chegou ao topo das paradas de sucesso e transformou o mercado. O funkeiro virou o exemplo a ser seguido. Como é agora Bololô Records, de Ryan, e Gringos, de IG, são as maiores produtoras lideradas por MCs em São Paulo. Elas fornecem estrutura para gravação de videoclipes, distribuição das músicas e um staff para produção dos shows. Os artistas que decidem assinar contratos com produtoras comandadas por outros funkeiros dizem que a grande vantagem é terem um empresário que conhece suas necessidades no detalhe e passou por dores parecidas. Entre os pontos levantados como diferenciais estão: Casting pequeno: produtoras focam num trabalho individualizado, com no máximo uma dezena de artistas; Contratos mais diluídos: acordos de uma década com divisão igualitária viram contratos com ganhos variáveis e maior controle e conhecimento sobre faturamento; Mais informalidade: mesmo sob contratos, artistas não enfrentam amarras para, por exemplo, fazer músicas com produtores ou MCs de outros escritórios. “Quando estou numa reunião, sinto que sou ouvido diferente. Sei que meu empresário passou por algo que já passei, sente a mesma coisa que eu. Os conselhos são diferentes”, conta MC Lele JP. As produtoras comandadas por MCs ainda enfrentam dois obstáculos. O primeiro é com relação à estrutura formal. A ideia da informalidade, algumas vezes, esbarra na necessidade de uma burocracia básica para formulação de contratos. "Às vezes, tem gente que acha que é só entrar em estúdio e subir a música no YouTube. Mas, com certeza, o problema aparece depois na divisão do dinheiro. Tem que ter tudo sob contrato, não dá para ficar só na palavra", explica DJ Loirin, dono da Cria Hit Porém, o principal obstáculo apontado pelos artistas/empresários é: construir um bom setor de venda de shows. Com mais de 15 anos de bagagem, a GR6 domina essa reserva de mercado, conseguindo implementar um modelo que garante sua hegemonia no setor. Porém, com a mudança de mercado, o escritório comandado por Rodrigo Oliveira flexibilizou contratos com artistas e passou a fechar acordos pontuais com as produtoras de MCs/empresários, cuidando apenas das suas agendas. É o caso de Lele JP: enquanto toda a parte artística, de produção e distribuição das músicas, gravação de videoclipes, etc, fica sob responsabilidade da Gringos, quem vende seus shows é a GR6. Essa grande mudança de rumos fez com que o mercado do funk ganhasse ainda mais capilaridade, com mais opções de empresas com organização e uma maior cobrança por profissionalismo por parte dos artistas. Mesmo após a revolução sugerida por Kevin, muitos MCs seguem com dificuldades de entender até mesmo o que é um fonograma e como funciona a divisão de ganhos da sua música. Com o passar do tempo, esses artistas vão ficando no passado e uma nova geração vem surgindo com mais conhecimento e um desejo ainda maior de independência.

Fale Conosco